sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Educação não é a salvação da economia

Diante do baixo crescimento da economia brasileira, em comparação com outros paises emergentes, como a Coreia do Sul e agora a China e a Índia, todas as responsabilidades e esperanças são depositadas na educação.
Tudo é colocado como se o povo brasileiro fosse mais educado, teriamos um crescimento maior, o que é uma ilusão.

A educação, por si só, não aumenta a demanda nacional, e se não aumenta a demanda, não adianta produzir mais ou mesmo produtos ditos de maior valor agregado, se esses não vão encontrar compradores.

O que pode se considerar é que o consumidor mais educado irá demandar produtos melhores e esses produtos melhores irão requerer trabalhadores mais educados. Formar-se-ia ai um círculo virtuoso. Que seria válido se a economia fosse fechada. Ou seja, essa demanda mais qualificada seria atendida por uma produção nacional. Na prática, esse demanda mais qualificada, ou melhor dito, mais sofisticada, vem sendo atendido por produções externas.

Pode-se estabelecer o raciocínio inverso: com o trabalhador mais educado, ele produziria com maior produtividade e com maior qualidade. E essa oferta seria comprada por um consumidor mais educado. Mais uma vez se substituiria o círculo vicioso pelo virtuoso. De novo, é preciso considerar como isso funciona, nuam economia aberta. Essa oferta mais qualificada pode não ser vendida pela oferta concorrente de outros paises.

Ou seja, não é mais possível considerar as relações entre a educação e a economia, num ambiente fechado.

sábado, 28 de abril de 2007

Dia Mundial da Educação

Hoje é o Dia Mundial da Educação
Não temos muito a comemorar, mas apenas manifestar esperanças.
As últimas pesquisas e informações sobre o ensino fundamental mostram que as melhores escolas são aquelas mais integradas com a comunidade local, independente da sua renda. A melhor delas estaria em Barra do Chapéu, em São Paulo, no Alto da Ribeira, a região mais pobre do Estado.
A realidade está ai à mostra, mas os diagnósticos continuam distorcidos, muito devido ao corporativismo.
O dia hoje é a da educação e não do educador. Esse deveria fazer uma autocrítica para avaliar até que ponto tem responsabilidade na degradação do sistema de ensino brasileiro, em função do corporativismo.
A tendência de cada grupo é ver o corporativismo dos outros, mas não reconhecer o próprio. A dos outros é indefensável. Para a própria se desenvolvem os melhores argumentos para defendê-la.
Estamos indignados diante do corporativismo da Justiça, que protege os seus. Exigimos do Poder Judiciário uma posição menos corporativa, punindo os seus membros, excluindo-os da sua corporação.
Reagimos contra o corporativismo do legislativo que defende o reajuste dos seus proventos, agora com efeito retroativo.
Os poderes legislam e agem em benefício próprio e isso nos causa revolta e indignação.
Precisamos, no entanto, não esconder as nossas maçãs podres.
Temos que avaliar, até que ponto, os "direitos adquiridos" comprometem o desempenho do sistema de ensino.

Só para lembrar: o próximo feriado é por conta do Dia do Trabalhador e não do Dia do Trabalho.

sábado, 14 de abril de 2007

As crianças da Consuelo no futuro

A profa Consuelo, uma das criadoras deste blog é professora do ensino básico, em Santos, São Paulo, com uma turma de crianças de sete anos, de uma comunidade pobre. De famílias consideradas de classe pobre, ou pelos mecadólogos como pertencentes à classe E.
São crianças que apesar da origem familiar humilde estão tendo a oportunidade de aprender e se educar. Como nascidas em 2000, nas eleições de 2018 já serão eleitores, seguindo por 2020, 2022 e eleições subsequentes.
Seus pais são eleitores, com pouca formação escolar, beneficados pelos programas sociais dos Governos.
Em 2018 e eleições subsequentes irão repetir os pais, votando nos candidatos aos quais foram gratos pelos benefícios concedidos? Irão votar por gratidão, ou estarão revoltados? Votarão na esperança.
O que a educação básica fará diferença para eles?

sexta-feira, 13 de abril de 2007

A educação no processo político

Os resultados das pesquisas de opinião mostrando um elevado nível de aprovação do Presidente Lula, deixa a população mais educada perplexa e "aniquilada".
Tem a sensação de que Lula é "teflon", em que nada de ruim pega, como o apagão aéreo e que isso decorre da falta de informação, de instrução e de educação. O que levaria a maioria da população a se satisfazer com as "esmolas" concedidas pelo Governo.
Dai, ver na educação a saída para mudar esse quadro.
Supõe-se que com um sistema de ensino mais amplo, com mais recursos, com melhor capacitação de professores, métodos e instrumentos pedagógicos modernos, a população melhor educada perceberia melhor os problemas do país, seria mais crítico em relação aos governos e aos parlamentos, e não mais elegeria os politicos fisiologistas que "envergonham a nação".
E, pela resistência social, evitariam os sucessivos escândalos.
Como essa percepção não é de hoje, mas - do meu conhecimento - tem mais de cinquenta anos, com a reação da classe média à eleição de Getúlio Vargas e ao seu governo, aparentemente essa estratégia fracassou e continuaria fracassando.
E a razão principal estaria - a meu ver - na concepção do sistema de ensino, que tem o viés idelogico, decorrente da reação acima.
O sistema de ensino - em todos os níveis - é comandado pela classe média que procura fazer dele um "processo civilizatório" para que os educandos absorvam a "visão de mundo" dela (classe média), ou seja, os valores que ela considera fundamentais, como a cidadania, a ética.
A realidade mostra, no entanto, que a população mais pobre resiste a essa "visão de mundo", porque o seu mundo é diferente, ainda que morando no mesmo país, ou no mesmo Município.

O que pretendo colocar em discussão, a partir da proposição de reflexões, é sobre o impacto da educação sobre ascensão social, econômica e política. E que Brasil teremos, ou poderemos ter, como resultado do processo educacional.

Reitero que as minhas opiniões são pessoais, da minha inteira responsabilidade, não correspondendo - necessariamente - com a das demais colaboradoras.

Colocações prévias

Preliminarmente quero agradecer à Bel, minha querida filhota virtual, a criação deste blog, que propus para ter um "cantinho" próprio para discussão das questões educacionais, que ficavam perdidas no meio de outros temas no meu blog Inteligência Estratégica [ http://cndpla.blog.uol.com.br ] .
E também à Consuelo, incansável professora, na linha de frente, com seus aluninhos, assumindo a temeridade de tentar colocar em prática proposições que tenho feito.
As minhas colocações sobre a educação, se baseiam em dois pilares: APRENDIZAGEM e MOTIVAÇÃO. Sem eles, os esforços serão ineficazes.
Foca, preferencialmente, o aluno, as pessoas que querem ou precisam aprender. Menos o processo de ensino.
E procura, ainda analisar o papel social e político da educação.

As opiniões que aqui coloco - com identificação de autoria - são pessoais e da minha inteira responsabilidade, não correspondendo - necessariamente - com a das demais colaboradoras.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Pesquisa vai mapear a qualidade da merenda

CLÁUDIA COLLUCCI
da Folha de S.Paulo
Uma pesquisa nacional vai mapear a qualidade da merenda nas escolas públicas brasileiras e verificar como anda o estado nutricional dos alunos. O trabalho, inédito no país, começa no próximo dia 2, custará R$ 3 milhões e será financiado pelo governo federal.A idéia é que o estudo avalie o Pnae (Programa Nacional de Alimentação Escolar), criado na década de 50, e aponte alternativas, se necessário, para adequar a merenda aos padrões recomendados hoje para reduzir as doenças ligadas à obesidade, cada vez mais freqüente entre crianças e adolescentes.
Há dois anos, uma pesquisa feita em São Paulo com 8.020 estudantes de 10 a 15 anos revelou que 16% estão na faixa de sobrepeso e 10% são obesos. O trabalho mostrou que a combinação entre a má alimentação e a pouca atividade física seria a principal causa de obesidade, que expõe crianças e adolescentes a problemas como hipertensão e diabetes tipo 2.
Nos próximos dois meses, serão entrevistados 21,6 mil estudantes do ensino fundamental de 690 municípios brasileiros. A pesquisa vai ouvir também merendeiras, professores e diretores de escolas federais, estaduais e municipais, públicas e filantrópicas.
De acordo com os organizadores do estudo, será realizada uma análise dos cardápios, da sua aceitabilidade pelos alunos e da adequação do consumo dos produtos em relação às necessidades nutricionais.
Estado nutricional
As crianças também vão passar por um diagnóstico do estado nutricional e será avaliado o aspecto da segurança alimentar --diz respeito ao controle do alimento, à infra-estrutura e às condições higiênicas do local de produção e a distribuição dos alimentos escolares."É importante avaliar o programa de alimentação escolar e se as recomendações nutricionais estão sendo cumpridas, com cardápios equilibrados em energia, proteínas, lipídios, vitaminas e sais minerais, bem como o estado nutricional desses escolares", disse a presidente da Asbran (Associação Brasileira de Nutrição), a professora Andrea Polo Galante, que vai coordenar a pesquisa.
Financiado pelo Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome, o projeto envolve ações de várias instituições, como os ministérios de Ciência e Tecnologia, da Educação e da Saúde, o Consea (Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional), o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e universidades.
O Pnae é o maior e mais antigo programa de alimentação e nutrição do Brasil, mas nunca passou por uma avaliação. Seus recursos são repassados diretamente aos Estados, Distrito Federal e municípios. Em 2005, os investimentos atingiram cerca de R$ 1,3 bilhão.

Inscrições no Prouni

Inscrições para instituições de ensino superior no Prouni começam quarta
da Folha Online
Começa na quarta-feira (11) o prazo para as instituições de ensino superior aderirem ao Prouni (Programa Universidade para Todos). As instituições que pretendem oferecer bolsas do programa no segundo semestre deste ano devem fazer a adesão até 11 de maio. Mesmo aqueles que já participam do programa também precisam aderir para continuar oferecendo as bolsas.As instituições participantes podem oferecer bolsas integrais e parciais a estudantes de baixa renda em cursos de graduação e seqüenciais de formação específica. No primeiro semestre do ano, foram oferecidas 65.276 bolsas integrais e 43.366 parciais. Mais de 517 mil estudantes participaram da seleção.
Estudantes
O prazo de inscrição para os estudantes concorrerem a bolsas para o segundo semestre vai de 23 de maio a 9 de junho. A participação no Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em 2006 é obrigatória, assim como a nota mínima de 45 pontos.O estudante também precisa ter feito todo o ensino médio na rede pública ou ter sido bolsista integral em escola privada. Também é necessário comprovar renda familiar de até um salário mínimo e meio (R$ 570,00), por pessoa, para concorrer à bolsa integral; e até três salários mínimos (R$ 1.140,00) para bolsa de 50% da mensalidade.

Corrida pelo saber

Má performance da educação brasileira em indicadores internacionais e aumento da oferta de olimpíadas de diversas disciplinas recolocam em pauta a utilização de competições como ferramenta para a criação de desafios no âmbito da aprendizagem

No último Fórum Econômico Mundial, o Brasil desceu alguns degraus na escala da competitividade global, agora listado na 66ª posição entre os 125 países avaliados. Em outro ranking, do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), o país também decepciona: entre 2000 e 2004, registrou sua pior evolução no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) desde 1975, quando o estudo iniciou a comparação histórica. Entre as mazelas que fazem despencar nossa competitividade, a macroeconomia não está sozinha. O relatório de Davos aponta também para um ensino básico com baixa qualidade e grandes taxas de evasão, ao lado de uma universidade pública ainda pouco acessível às camadas de baixa renda. No estudo da ONU, o Brasil não avançou em dois dos quatro critérios avaliados: taxa de alfabetização de pessoas com idade igual ou superior a 15 anos e taxa de matrícula nos três níveis de ensino (fundamental, médio e superior).
Na chamada era do conhecimento, a educação ganha status de indicador econômico, é avaliada por metas de desempenho e reconhecida como alavanca para a competitividade. Não por acaso, a onda chega também às salas de aula e faz emergir um novo perfil de aluno. Hoje, mais de 40 comunidades reúnem uma nova "tribo" de adolescentes, em meio a tantas do portal de relacionamentos orkut. Longe de representar os aficcionados pelo último game da temporada ou os fãs da banda de pop rock do momento, eles têm em comum o interesse por disputas que medem o conhecimento em disciplinas escolares, que na última década ganharam diferentes versões e ampliaram as áreas de interesse. No mundo virtual, elas confirmam a existência de um público fiel: o dos apaixonados pelas competições do saber, da tradicional Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) às provas mais recentes, como a de Astronomia, que em 2006 superou a marca de 300 mil participantes entre alunos dos ensinos médio e fundamental. Só as comunidades dedicadas à Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (Obmep), criada em 2005, contam mais de 2 mil integrantes, que debatem teorias, lançam formulações e comparam os resultados das provas via internet.
"Competições mobilizam professores e alunos e contribuem para revitalizar o ensino da disciplina", diz Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia
Para se ter uma idéia da importância atribuída às competições estudantis, o Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE), anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em março, propõe a criação de uma Olimpíada de Língua Portuguesa como forma de mobilizar escolas e alunos no combate à chaga da alfabetização precária, que leva muitos estudantes a não entender o que lêem.

Febre virtual

Alunos sob pressão? Não é o que parece. Ao contrário, muitas dessas comunidades organizam virtualmente seus próprios concursos, a exemplo da Olimpíada Orkutense de Matemática (OOM) e do Torneio de Matemática do Orkut.
"É muito divertido", garante Sávio Ribas, 15 anos, um dos idealizadores da OOM. Estudante do ensino fundamental de uma escola pública de Ouro Preto (MG), Sávio é um dos milhões de alunos da rede oficial que disputaram a Obmep, promovida pela Sociedade Brasileira de Matemática. Premiado com menção honrosa e uma bolsa de iniciação científica júnior do CNPq, que cursa desde junho passado, elogia a iniciativa.
"Muitos estudantes de escolas públicas se sentem desmotivados. A Obmep nos estimulou, mostrou que somos capazes. Aprendemos a gostar da matéria, a lidar com provas desafiadoras e somamos amigos com os mesmos interesses. Foi a primeira em que competi e agora não perco uma", completa.

Questão controversa

Mas o entusiasmo de Sávio não é compartilhado por muitos educadores. "A competição pela competição não é ferramenta pedagógica. A própria denominação reforça esse espírito e remete ao pódio dos vencedores", diz Victor Koloszuk, diretor do ensino médio do Colégio Vértice, que pelo segundo ano consecutivo obteve em 2006 a melhor média no Enem entre as escolas do Estado de São Paulo. "A idéia é boa, os organizadores bem intencionados, mas o modelo é questionável. Ao invés de ser um estímulo, pode ser desastroso para um aluno adolescente", sustenta.
Na mesma trilha, Francisco Soares, do Grupo de Avaliação e Medidas Educacionais (Game) da Universidade Federal de Minas Gerais, encara com reservas o repertório de competições ofertado aos alunos. "O vestibular, inevitável enquanto houver mais candidatos do que vagas, cumpre bem sua função, embora tenha o efeito colateral perverso de pautar o ensino médio, obrigando milhões de alunos a estudar conteúdos só significativos para a seleção de poucas universidades. Mas as olimpíadas, que merecem a simpatia de tantos, têm problemas similares. Quando se transformam em políticas educacionais, prestam um desserviço ao sistema, pois medem o desempenho do aluno típico com uma régua adequada apenas para 'ronaldinhos'. Será que a grande massa se sente valorizada ao ser completamente reprovada? Se a régua é inadequada para diagnóstico e monitoramento da qualidade da educação, qual a utilidade da medida resultante e por quê defender seu uso?", questiona.
Francisco Soares, da UFMG: como políticas públicas, competições prestam um desserviço ao sistema
Os defensores rebatem, sob o argumento de que o papel da Educação também é identificar e construir talentos. É o que acredita Ildeu Moreira, do Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT). À frente do Departamento de Popularização da Ciência e Tecnologia, criado pelo governo Lula, em 2003, Moreira garante que as competições acabam mobilizando professores e alunos, contribuem para revitalizar o ensino da disciplina e melhorar a auto-estima dos educadores, que se sentem socialmente valorizados. "O risco está no enfoque, na abordagem, e não no mecanismo em si", pondera.

Na dose certa

É na sala de aula que a questão assume contornos mais concretos. Afinal, como as escolas encaram a nova onda de competições e como isso chega ao aluno?
No Vértice, não há cursos preparatórios nem as chamadas turmas olímpicas. Aos alunos que demonstram interesse em se preparar para alguma competição do gênero, o diretor sugere ocupar o tempo livre para descansar ou sair com a namorada. "Nos dias de hoje, vai ter mais sucesso pessoal quem tiver uma visão mais aberta a todas as áreas do conhecimento", justifica.
Segundo colocado entre as escolas paulistas na última edição do Enem, o Colégio Bandeirantes prefere encampar aquilo que chama de "Olimpíadas Acadêmicas". Mantém não apenas uma área dedicada ao assunto em sua página na internet, como organiza cursos preparatórios para as provas olímpicas de física, química e matemática. A participação é oferecida apenas aos alunos com bom desempenho global e não é aconselhada às turmas do 3º ano do ensino médio, que têm carga horária diferenciada em função do vestibular.
O pioneiro Shigueo Watanabe, criador da Olimpíada Paulista de Matemática: bolsas para alunos de baixa renda terem acesso a universidades públicas de alto nível
"Assim como existem grupos de reforço para o aluno que não atinge os objetivos, por que não oferecer apoio educacional suplementar àqueles com ótimo rendimento?", questiona o professor de matemática Irineu Romera, orientador do curso de preparação oferecido pelo Bandeirantes.
Na contramão, o Etapa, também de São Paulo, vai por uma outra linha: participa quem quiser. A escola estimula seus alunos a concorrer nas olimpíadas abertas, abre as portas de seus cursos olímpicos - com turmas que já chegaram a 120 alunos - e também promove competições internas, em cinco disciplinas (física, química, biologia, matemática e português), com a adesão de outras escolas que adotam sua metodologia.
Se diante de poucos exemplos há visões tão contrastantes, não é difícil dimensionar a extensão do debate. O que parece consenso é a importância de um olhar individualizado, respeitando os limites e particularidades de cada estudante. "A competição é importante e a criança precisa aprender a competir", diz Marilda Novaes Lipp, presidente da Associação Brasileira de Estresse e titular do Departamento de Psicologia da PUC de Campinas. "Se o aluno for extremamente protegido e mantido em uma redoma emocional, não estará apto a enfrentar o mundo de hoje", alerta.
Como acertar a dose? A recomendação da especialista é apelar ao bom senso, que aponta para o ponto de equilíbrio. É preciso estar atento ao grau de exigência imposto aos alunos, ao caráter ético das competições e, principalmente, a uma reflexão permanente, que deve envolver pais e educadores: até que ponto a criança não está sendo preparada para ser exibida como um troféu? Até onde a escola está trabalhando em benefício do aluno ou em sua própria estratégia de marketing?

Ferramenta de inclusão

Extraídos os excessos, muitos educadores parecem convergir para o reconhecimento de que as competições educacionais têm méritos importantes. Apoiar talentos, sem dúvida, é um deles. Abrir oportunidades a crianças e jovens com grande potencial e evitar que sejam lançados precocemente no mercado de trabalho pela pressão econômica é outro.
Pioneira, a Olimpíada Paulista de Matemática (OPM), criada em 1977, nasceu com um forte viés social. Já na edição inaugural, teve mais de 2,2 mil escolas e cerca de 1,5 milhão de estudantes inscritos. Seu idealizador, Shigueo Watanabe, Ph.D. em Física Nuclear pela Universidade de Washington, em 1961, hoje aposentado como professor titular do Instituto de Física da USP, é nome de referência em competições educacionais no Brasil. Organizou a OPM durante 25 anos, concretizou outras tantas olimpíadas na área da ciência e ainda hoje se mantém envolvido em diferentes iniciativas do gênero.
"Desde o início, oferecíamos bolsas para que alunos de baixa renda pudessem completar seus estudos e tivessem a oportunidade de ingressar em uma universidade pública de alto nível", diz Watanabe.

Oportunidade para a carreira

Hoje, graças à participação de entidades como a Fundação Lemann e o Instituto Social Maria Telles (Ismart), organização sem fins lucrativos que apóia alunos de baixa renda com alto potencial acadêmico, o modelo tem ampliado seu alcance social. Segundo o Ismart, levantamentos mundiais indicam que entre 1% e 5% da população mundial é composta por pessoas com esse perfil. No Brasil, existem 2,5 mil estudantes identificados.
Foram propostas como essa que impulsionaram a carreira de Ralph Teixeira, medalhista de ouro por dois anos consecutivos (1986 e 1987) na seleta Olimpíada Mundial de Matemática, hoje Ph.D. na matéria pela Universidade de Harvard e um dos mais reconhecidos cientistas brasileiros. É o que alimenta também os sonhos de muitos jovens selecionados pela Obmep para as bolsas de iniciação científica do CNPq. Estudantes como o Walassy Rosa da Silva, 16 anos, aluno da 2ª série do ensino médio do Colégio Estadual Helena Assis Suzart, em Feira de Santana (BA).
"Nunca imaginei que existissem tantas áreas ligadas à matemática. Pude conhecer o Instituto de Matemática Pura Aplicada (Impa) pessoalmente, no Rio de Janeiro, e assisti aos vídeos da Unicamp e do ITA. Vou me esforçar muito para conseguir estudar em um desses lugares", diz Walassy.
E não são apenas os alunos de baixa renda que se beneficiam da inclusão. Independentemente de sua condição econômica, garotos rejeitados em função de serem vistos como muito estudiosos parecem ter encontrado um meio de ser aceitos. "As olimpíadas deram espaço social a um aluno que passou a ser valorizado pelos seus pares", sustenta Ronaldo Fogo, encarregado das turmas olímpicas do Colégio Objetivo.
A MARATONA OLÍMPICA

OBM - Olimpíada Brasileira de Matemática
Criação: 1978
Público-alvo: alunos dos ensinos médio e fundamental (5ª a 8ª série), além da edição universitária
Participantes em 2006: 350 mil alunos de 5 mil escolas (redes pública e privada)

Obmep - Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas
Criação: 2005
Público-alvo: alunos dos ensinos médio e fundamental (5ª a 8ª série)
Participantes em 2006: 14,15 milhões de alunos de 32,6 mil escolas públicas

Olimpíada Brasileira de Saúde e Meio Ambiente
Criação: 2002Público-alvo: alunos dos ensinos médio e fundamental (5ª a 8ª série)

Olimpíadas de Química
Criação: 1986
Público-alvo: alunos do ensino médio

OBI - Olimpíada Brasileira de Informática
Criação: 1998
Público-alvo: alunos do ensino médio e de 5ª a 8ª série do fundamental

OBF - Olimpíada Brasileira de Física
Criação: 1999
Público-alvo: alunos do ensino médio
OBA - Olimpíada Brasileira de Astronomia e Astronáutica
Criação: 1997
Público-alvo: alunos de todas as séries dos ensinos fundamental e médio

OBB - Olimpíada Brasileira de Biologia
Criação: 2005
Público-alvo: alunos do ensino médio
Participantes em 2006: 16.500 estudantes

DAS OLIMÍPIADAS PARA O MIT

"Os resultados nas olimpíadas foram a chave para minha admissão no MIT (Massachusetts Institute of Technology)", diz Gabriel Tavares Bujokas, 18 anos, ouro no mundial de matemática em 2005. "Por causa das olimpíadas, ganhei bolsas de estudo e tive a oportunidade de ingressar nessa faculdade americana, uma vez que o sistema de admissão aqui [nos Estados Unidos] não é baseado em exames."
Bujokas começou a disputar a OBM no ano 2000, então na 6a a série. "Gostei tanto dos problemas da prova que continuei participando, por pura diversão", explica. "Todos os participantes que conheci disputavam a olimpíada para se divertir, porque o caráter dos problemas é extremamente desafiador. E muitos, como eu, são gratos por terem tido essa grande fonte de motivação", diz.
O êxito de Bujokas, agora membro do seleto time de alunos de um dos mais reconhecidos centros de excelência mundial em tecnologia, não foi suficiente para fazê-lo decidir que rumo trilhar. "Vou estudar matemática ou computação. Ou as duas coisas, não sei ainda."

MEDALHISTA MULTIMÍDIA

Mais de 70% do tráfego multimídia da web brasileira é gerenciado pelos softwares de uma empresa especializada nas sofisticadas tecnologias requeridas pela internet. Graças ao trabalho da LabOne, os assinantes do portal Terra assistiram à Copa do Mundo de 2006 e os italianos à transmissão do funeral do Papa pelas páginas pontocom. O sócio-fundador, Reynaldo Fagundes, começou a desenhar os rumos da empresa aos 19 anos, depois de conquistar a medalha de prata no mundial de matemática de Hong Kong (1994). Hoje, aos 31, está à frente da companhia no Brasil e em mais seis países, incluindo o competitivo mercado norte-americano.
"Foi paixão à primeira vista", recorda o executivo, referindo-se às primeiras aulas de preparação olímpica que assistiu como aluno do Etapa, em São Paulo. Para Fagundes, a matemática, quando vista sob o ângulo das olimpíadas, é bem diferente da matéria tratada regularmente em sala de aula.
"As ferramentas são as mesmas que um aluno de ensino médio domina e não exigem o conhecimento de teorias muito avançadas. No entanto, a mágica do negócio é formular problemas complexos e com raciocínio sofisticado apoiados naquela teoria básica. Os problemas são bonitos, as soluções muito elegantes e, para quem gosta, isso desperta uma admiração, assim como um apreciador de obras de arte ao visitar a Capela Sistina", compara.
O interesse pela matéria cresceu. Ao voltar do mundial da China, Fagundes passou a se dedicar ao estudo da compressão do vídeo digital, processo que depende fundamentalmente de algoritmos matemáticos. A web ainda engatinhava quando ele começou a debater o assunto em grupos de discussão e ganhou visibilidade. Convidado por uma empresa canadense, virou consultor. Daí para a criação de sua empresa foi um passo. Em 2003, começou a operar internacionalmente. "Graças às olimpíadas, comecei a ter contato com atividades sofisticadas bem mais cedo", diz. Além do mundial de 95, Fagundes foi prata nas Brasileiras de Matemática em 1992 e na Ibero-Americana de 1993, realizada no México.

Uma questão de valores em Educação
A escola hoje tem pouco tempo para ser apenas escola

Diante dos resultados de provas que avaliam desempenho escolar em âmbito nacional, salta aos olhos a evidente discrepância entre os primeiros colocados e os do final da fila. Mas, ao lado da repercussão e das conseqüências que esses resultados provocam, é imperativo perguntar: a competitividade é um valor para a Educação?
Ainda que a tradição nos traga a lembrança de medalhas e troféus para os melhores alunos, premiando esforços e empenho no trabalho escolar, é preciso lembrar que, ao lado de poucos que recebiam louvores de mérito, havia muitos que não ultrapassavam as barreiras dos exames e eram reprovados. Eram tempos em que a escolarização era o destino de poucos. A maioria via o final da vida escolar no exame de admissão ao antigo curso ginasial.
No começo da década de 70, foi suprimido o exame de admissão e criou-se o ensino de 1º grau de oito séries. O projeto previa maior acesso à educação e mais tempo de permanência na escola. A criação da Lei 5692/71 representou uma proclamação dos valores democráticos. Valores que são afins com a fraternidade, a igualdade e a cooperação. A competitividade não é compatível com esses valores, portanto não pode ser considerada um valor na Educação. Embora seja um valor da cultura vigente e por esta razão penetrou no universo da Educação. É preciso continuar perguntando: por que os educadores não fizeram severas restrições ao que afrontava os princípios democráticos da legislação educacional no país?
A resposta para essa questão pode ser pensada a partir do processo de formação de professores. Enquanto as reformas de ensino acontecem num ritmo acelerado em busca de soluções para a precária qualidade do ensino, os cursos de licenciatura mantêm-se praticamente os mesmos há 20 anos. Isto revela que, seja no tempo disponível para as licenciaturas (1/9 da carga horária da formação do especialista), seja em termos do que efetivamente possa ser trabalhado do ponto de vista pedagógico, é difícil para um educador ter lucidez quanto aos objetivos e valores da Educação. É essa dificuldade de discernimento que produz distorções pedagógicas quando o tema são as competições educacionais. E, a julgar pelo interesse crescente nessas modalidades, há que se pensar na falta de desafios intelectuais consistentes na sala de aula. Tendo no horizonte o vestibular, as avaliações regulares da escolarização não são exercícios que tenham valor em si. São meros "ensaios" para a grande competição do tudo ou nada - o vestibular.
Nesse sentido, vale alertar que o que a escola vem fazendo com a competitividade é um desvio e não um bom uso no sentido de promover o desenvolvimento e o compromisso com o processo de aprendizagem.
O que se observa é que tal estado de coisas no âmbito escolar decorre de mudanças sociais aceleradas que afetam as referências fundamentais daquilo que é da competência da escola e o que não é, a vida em família, as relações sociais. Ainda é preciso perguntar: como o educador pode dar um bom destino à competitividade? Como associar os valores pedagógicos essenciais aos valores da cultura contemporânea?
São novos desafios que se avolumam desde os anos 50, quando do lançamento de Summerhill (liberdade sem medo), do escocês Alexander Sutherland Neill, que afirmou ser possível educar alunos felizes. A partir dessa proposta, a escola passou a se mobilizar em torno de questões que transcendem o compromisso com o aprender.
É tempo de se pensar que a escola hoje tem pouco tempo para ser apenas escola.
* po: Lisandre Maria Castello Branco - Professora Doutora da Faculdade de Educação/USP e psicanalista pelo Instituto Sedes Sapientiae

Educação no Brasil

Os papéis da educação

Nada como uma colocação polêmica para sucitar debates, com contestações assim como com apoios, bem fundamentados, ainda que também com algumas colocações mais emocionais.
Primeiramente, queremos reiterar que consideramos a educação fundamental (no sentido de importante) para a melhoria da sociedade, e que ela deve ser, de um lado universal, e de outro lado formar uma elite de conhecimentos.
O que aqui colocamos são questões quanto à sua sustentação e uma discussão sobre o seu papel social e ideológico.
A educação é um mecanismo que propicia as pessoas a adquirirem conhecimentos e com esses ter uma vida melhor, uma vida que se diferencia pelo conhecimento e seu uso, de uma vida animal, primária, que muitas vezes não passa do estágio da exclusiva sobrevivência.
Uma primeira consideração é que através da educação e do conhecimento o homem pode retirar e transformar bens naturais para uma vida melhor, com melhor alimentação e maior conforto. O homem sem maiores conhecimentos, movidos apenas pelos instintos e pela intuiçâo (como os demais animais) apenas extrai da natureza o seu alimento e sua proteção.
Atualmente, no entanto, se verifica que esse conhecimento para maximizar o uso dos recursos naturais se tornou uma grande forma de predação e mudanças nas condições naturais que pioram - no todo - as condições de vida da humanidade. A moto-serra é talvez uma das figuras mais marcantes de como o conhecimento, a educação e a tecnologia se transformaram numa forma de insustentabilidade dos bens naturais.
A educação permitiria às pessoas estarem melhor preparadas para um trabalho e isso permitiria que elas tivessem melhor renda, pudessem consumir mais, promover e ingressar num círculo virtuoso, que levaria a um incessante crescimento econômico, em função dessa aquisição e sucessiva acumulação de conhecimentos e capacidade de utilizar esses conhecimentos.
No entanto, o capitalismo e a globalização, fazendo com que a oferta so tornasse maior que a demanda, enfatizando a competição entre as empresas quebrou a possibilidade de crescimento sucessivo, baseada na educação.
O que foi válido para o crescimento dos paises hoje desenvolvidos não vale mais para os paises emergentes. Vale para alguns, mas não vale para todos. É um processo de soma zero, se não for algebricamente negativo. Aumentam, dessa forma, as diferenças sociais e de renda, entre pessoas e entre países.
O crescimento econômico não depende mais dos processos endógenos, mas requer uma ampliação do mercado para se inserir em processos mais amplos, globais.
Na perspectiva econômica e comercial, a educação propiciando a melhoria de conhecimentos não gera por si só, mais renda, mais consumo. Ela precisa ser orientada para consumos maiores, mais globais, sem o que não há empregos e rendas para absorver as pessoas, ainda que mais educadas, dentro de um processo endógeno.
É nesse sentido que insistimos que o modelo educacional japonês, coreano e agora chinês não é voltado - no sentido econômico - para um processo de crescimento interno (endógeno), mas é um instrumento do modelo de competitividade global, uma condição para melhorar as condições de concorrência das empresas sediadanas nos respectivos paises no mercado globalizado.
Um segundo papel esperado para a educação, ainda no campo econômico, é que ela propicie condições para o país desenvolver as atividades de alto valor agregado, ou de alta tecnologia agregada, ou ainda de alto conhecimento agregado. São os produtos que mais se desenvolvem no mundo moderno e que sustentariam os crescimentos continuados.
Cabe considerar, no entanto, que essas atividades são pouco empregadoras. Tem baixos índices de utilização de mão-de-obra por faturamento ou por investimento.
Desde os anos cinquenta, temos a falsa idéia de que jamais ficaremos ricos vendendo produtos agrícolas ou minerais. Naquela ocasião café e minério de ferro, e que precisavamos de vender ao mundo geladeiras, automóveis e aviões. Hoje vendemos isso tudo, e aí fica a falsa idéia de que precisamos vender computadores e telas planas. A Austrália e mesmo o Chile são demonstrações vivas que há economias que podem crescer e serem relativamente ricas (medidas, no caso, pela renda percapita) sendo exportadora de commodities e não de alta tecnologia.
São geradoras de renda, mas não de emprego, o que contribui para a desigualdade de renda. Poucos ficam muito ricos com essas atividades e não tem capacidade de absorver toda a mão-de-obra disponível no mercado.
Se essa mão-de-obra é mais educada, aumenta o desemprego educado.
É uma ilusão, achar que a educação, por si só, gera empregos. No mundo globalizado, a educação, por sí só, gera desemprego. A educação é um instrumento essencial para os ganhos de produtividade, o que significa produzir a mesma coisa, com menos gente.
Em termos de produtividade, a educação passa a ser vantagem econômica, quando se produz muito mais ainda que com mais gente. E não basta produzir, é preciso vender. E o trabalhador mais educado pode ser um comprador adicional para aquele que vende. Mas na outra ponta, houve um desemprego que consome menos.
Visto do ponto de vista pessoal, daquele que mais educado, conseguir um bom emprego, ganhar bem e poder gastar mais, esconde o fato de que na outra ponta, esse emprego gerou um desemprego, para atender a produtividade e a competitividade. E que esse desempregado reduz o seu consumo.
Procura-se mostrar apenas o lado positivo, o que escamoteia o conjunto. Aparentemente as coisas vão bem, mas as estatísticas do conjunto demonstram outra realidade.
Mas a educação não tem apenas um papel econômico, que não deveria, nem mesmo ser o principal. Está relacionada à cidadania, à conscientização do homem sobre os seus direitos e condiçõs de vida em sociedade. A conscientização é uma condição fundamental da vida humana e a educação foi e tem sido um poderoso instrumento para as pessoas se liberaram de mecanismos de submissão, seja a escravidão como a ditadura. O direito de manifestação é fruto da educação, que se contrapõe à ignorância.
A educação é uma forma para liberar o homem da opressão. A educação é essencial para o exercício da democracia. Mas também leva à distorções ideológicas, sendo vista como mecanismo de liberação dos sistemas hegemônicos. Ou seja, de se libertar do capitalismo.
Mesmo numa democracia, a falta de educação propiciaria as manipulações populistas, que leva a eleição de governanantes que atendem às necessidades imediatas, sem constuir uma esturutra sustentável, assim como "roubam" o Tesouro e o contribuinte.
Um outro grande papel da educação é a equidade. A possibilidade de gerar condições de igualdade entre as pessoas em relação às oportunidades de vida. Isso trataremos em outra oportunidade.
Mitos e ilusões

A defesa da educação como fator econômico parte do dogma de que a educação, por si só gera mais emprego e renda. A realidade hoje é outra.
Quando se percebe apenas o fenômeno do ponto de vista pessoal, de quem consegue um bom emprego, pela sua formação escolar, e tem um bom salário e consome mais, pode não estar vendo o outro lado: esse emprego pode ter sido a custa da demissão de outro ou de outros, que vão perder renda e consumir menos.
Educação gera emprego e renda é um dogma, não comprovado pela realidade, quando vista no conjunto.
Outro mito é que o país só ficará rico e desenvolvido se for exportador de produtos de maior valor agregado. Há casos de países como a Austrália, o Chile e outros que são mais desenvolvidos que o Brasil (em termos de renda percapita) que são essencialmente exportadores de commodities minerais e agrícolas.
Atividades de alta-tecnologia são altamente concentradores de renda. Alguns poucos ficam muito ricos (como Bill Gates) e aumentam o desemprego.
Não se pode enfrentar o problema real, com crenças, ilusões e mitos.
A educação é fundamental, é importante, é prioritário. Mas não é a panacéia universal.
Falta de educação e décadas perdidas

Depois do "milagre brasileiro" até os meados dos anos setenta, já são três décadas perdidas, em termos de crescimento econômico.
Há quem coloque a responsabilidade dessa situação à falta de educação da sociedade brasileira, como um todo, à baixa escolaridade e aos elevados índices de analfabetismo. Isso é transmitido pela elite, que - com isso - procura se safar da responsabilidade pelos seus erros.
O Brasil patina, em termos econômicos, há três décadas por culpa, por exclusiva responsabilidade da sua elite, que tomou e toma os caminhos errados, na condução da sua economia. Não é apenas do governo: é da elite empresarial, da elite intelectual, da elite econômica.
O Brasil tem crescimentos econômicos pífios, quando comparados com a evolução global e dos paises emergentes porque não soube se inserir na globalização e continua tendo uma visão equivocada sobre globalização. Continua voltado para dentro e vendo a globalização sempre como uma ameaça, e não como oportunidade.
A elite brasileira está sempre mais preocupada com os níveis de abertura da economia brasileira do que com as possibilidades de avançar nos mercados externos. Ainda sofre (pasmem) da síndrome de imperialismo.
Quando muito está voltado para a expansão do mercado regional, com os seus parceiros mais pobres e ai é inevitável que esses acusem o Brasil de imperialista. E é, ou melhor é um sub-império. Para não ser o Brasil precisa avançar sobre os grandes impérios, como a Índia e a China estão fazendo. A questão não é conquistar a Bolívia, mas conquistar "a América".
Não falta ao Brasil competência tecnológica e intelectual. O Brasil tem um quadro de cientistas, intelectuais, engenheiros, economistas e outros da maior competência profissional. Capazes de responder aos maiores desafios, desde que esses sejam os corretos. O problema do Brasil é buscar os desafios incorretos, os desafios errados. É mais um problema cultural do que profissional ou técnico.
Isso traz um paradoxo. Enquanto se alega que falta ao Brasil mais educação, mas gente capacitada, a competência existente está ociosa. Os cientistas estão isolados nos seus laboratórios, não buscando, não querenos maior integração com os empresários (que para eles são todos bandidos), e os empresários não procuram esses "gênios comunistas". Os intelectuais estão perdidos, preferindo o silêncio. Um silêncio ensurdecedor. A engenharia brasileira, que já foi uma das mais importantes do mundo, está hoje degradada, ociosa e sem rumo. Os economistas - formados nas melhores universidades mundiais - continuam tratando a economia brasileira numa visão estatística como se fosse a economia de onde eles estudaram. Nem sempre sabem separar o substantivo do adjetivo.
Não falta competência profissional ou educacional. Falta visão. Ou pior, a elite brasileira - que comanda os seus rumos - continua com visões equivocadas sobre o Brasil e sobre o mundo.
Continua faltando Galileu para dizer que não é o sol que gira em torno da terra, mas é a terra que gira em torno do sol. A elite brasileira continua acreditando que o mundo gira em torno do Brasil. Que o Brasil é o centro do mundo.
Educação, empregabilidade e ascensão social

Nesta questão da educação há alguma confusão, em função da diversidade do ângulo em que se vê a questão.
A educação, no sentido escolar, pode melhorar a empregabilidade individual, mas não necessariamente a empregabilidade conjunta. Na prática tem sido o oposto. Um trabalhador mais qualificado, com maior nível educacional, pode estar substituindo mais de um trabalhador com menos qualificação, aumentando o desemprego global.
O processo sucessivo de ganhos de produtividade na produção industrial, requerendo mão-de-obra mais qualificada, causou no Brasil, como em outros países, um aumento de desemprgo.
A educação, uma vantagem de natureza pessoal, não se constitui em agregação de valor conjunta, se não houver aumento de demanda e de produção para atender a essa demanda.
A educação, por si só, não gera produção, nem emprego.
É uma suposição de que uma sociedade com mais pessoas educadas terá mais competitividade e poderá crescer economicamente, gerando mais empregos. A história brasileira não comprova tal tese. Ao contrário.
Ai se faz, mais uma vez a confusão entre os valores absolutos e os relativos. O Brasil produz, a cada ano, um volume significativo de pessoas mais educadas, mais qualificadas, alguns deles em niveis de alta-especialização, seja para a academia, como mestrados e doutores, como para o mercado. O outro problema é dos excluidos da educação, ou dos falsamente educados, que igualmente aumentam a cada ano.
O que gera a dinâmica de crescimento não são esses falsos educados ou os analfabetos. Esses fazem parte do exército de excluidos que são alijados pelos mais educados. Ou permancem no mercado, em função da perversa lógica do capitalismo, que prefere manter esse exército de semi-qualificados para pagar menos, na suposição de que isso lhe dá mais lucros.
É falsa a correlação que se faz entre uma pauta de exportações, com baixa participação de produtos de maior valor agregado ou com baixo teor tecnológico, com o nível global de educação, ou de analfabetismo. É equivocada, também a ordem dos fatores, quando se vê exemplos como o da Coreia e agora da China. Não é o investimento em educação que faz da Coreia um centro de inovação tecnológica, mas a opção pelos produtos de alta tecnologia que leva ao investimento em educação.
O Brasil teve oportunidade histórica igual, ou até melhor. Quando a Coreia começou o Brasil tinha um quadro de cientistas, pesquisadores e competências muito superiores ao da Coréia, ainda que convivendo (sempre) com um enorme contingente de analfabetos e semi-analfabetos, grande parte na área rural. A Coreia que saiu da Guerra (no final dos anos 50) era um país essencialmente agrícola.
A diferença fundamental não foi a educação, mas a opção pelo "modelo exportador". A Coreia optou (ou por falta de opção) orientou a sua industrialização para o mercado norte-americano (e também para o japones e europeu) e para se manter nesse mercado - inicialmente patrocinado pelo Governo norte-americano dentro da sua estratégia da guerra fria - procurou o desenvolvimento tecnológico. E foi muito bem sucedida nessa empreitada, ao dar à educação o suporte de sustentação continuada.
O Brasil não consegiu o mesmo sucesso econômico, porque - ainda que investindo, na ocasião, muito mais em educação que a Coreia (isso em termos absolutos e não relativos) preferiu ficar voltado para o mercado interno, com reserva de mercado, sem o desafio de inovar para competir.
O fato real é que a demanda interna não foi o suficiente para dinamizar a produção e isso gerou um círculo vicioso, que só recentemente começa a ser rompido. O atraso, no entanto, foi fatal. O mercado mundial dos produtos de alta tecnologia está tomado pelos concorrentes.
Mas ainda há nichos de oportunidades.
O que continua faltando ao Brasil não é competência científica, nem tecnológica para ser um produtor e exportador de alta tecnologia. Faltam empresários ousados e competentes.
Segundo os teóricos do setor, essa carência decorre de um ambiente desfavorável. Ou seja, no Brasil não há um ambiente favorável para o surgimento e sustentação de empresários em atividades de alta tecnologia.
Outra confusão que se faz é entre a alta tecnologia e a sociedade do conhecimento.
Só como provocação. Um dos expoentes brasileiros da sociedade do conhecimento é o marketólogo Duda Mendonça.
Educação, empregabilidade e ascensão social - 2

Uma outra questão é da ascensão social pela educação.
Como caso concreto desse processo, vindo da classe média baixa, e ascendendo social e economicamente para patamares mais elevados, em função da educação, a maior parte dela em escolas públicas, ou patrocinadas pelo Estado, sou testemunha (ainda viva).
Mas o processo que vivi, a faciliade de ascensão hoje está contido, está reprimido e com caminhos equivocados.
Diante da concorrência daqueles que tem possibilidade de maior preparo para ingressar e se desenvolver na carreira educacional e profissional, a saida buscada tem sido a inclusão forçada.
No "meu tempo" não era preciso forçar nada. O mercado era amplo, o Brasil crescia a taxas elevadas, a modernização requeria novos profissionais e aqueles que tinham oportunidade de estudar, puderam ascender social e economicamente.
Hoje o mercado não oferece mais essa possibilidade e muitos dos que ascenderam, depois descenderam.
Sem crescimento econômico não há campo para a ascensão social e daqueles que forem incluidos artificialmente, poucos conseguirão seguir uma carreira ascendente. Haverá sempre casos ufanistas para contar. A história gosta de mostrar os vencedores, mas procura esconder os perdedores.
E educação é necessária. É preciso investir na educação, mas sem a atenção com a ponta da demanda, sem o investimento na produção, continuaremos gerando um grande desperdício de esforços e de conhecimento.
Sem demanda não há produção, sem produção não ha conhecimento que se sustente. Conhecimento é perecível e se perde ao longo do tempo.
A engenharia brasileira, o quadro de engenheiros brasileiros é um dos maiores exemplos de desperdício econômico e social.
por: Jorge Hori