Os papéis da educação
Nada como uma colocação polêmica para sucitar debates, com contestações assim como com apoios, bem fundamentados, ainda que também com algumas colocações mais emocionais.
Primeiramente, queremos reiterar que consideramos a educação fundamental (no sentido de importante) para a melhoria da sociedade, e que ela deve ser, de um lado universal, e de outro lado formar uma elite de conhecimentos.
O que aqui colocamos são questões quanto à sua sustentação e uma discussão sobre o seu papel social e ideológico.
A educação é um mecanismo que propicia as pessoas a adquirirem conhecimentos e com esses ter uma vida melhor, uma vida que se diferencia pelo conhecimento e seu uso, de uma vida animal, primária, que muitas vezes não passa do estágio da exclusiva sobrevivência.
Uma primeira consideração é que através da educação e do conhecimento o homem pode retirar e transformar bens naturais para uma vida melhor, com melhor alimentação e maior conforto. O homem sem maiores conhecimentos, movidos apenas pelos instintos e pela intuiçâo (como os demais animais) apenas extrai da natureza o seu alimento e sua proteção.
Atualmente, no entanto, se verifica que esse conhecimento para maximizar o uso dos recursos naturais se tornou uma grande forma de predação e mudanças nas condições naturais que pioram - no todo - as condições de vida da humanidade. A moto-serra é talvez uma das figuras mais marcantes de como o conhecimento, a educação e a tecnologia se transformaram numa forma de insustentabilidade dos bens naturais.
A educação permitiria às pessoas estarem melhor preparadas para um trabalho e isso permitiria que elas tivessem melhor renda, pudessem consumir mais, promover e ingressar num círculo virtuoso, que levaria a um incessante crescimento econômico, em função dessa aquisição e sucessiva acumulação de conhecimentos e capacidade de utilizar esses conhecimentos.
No entanto, o capitalismo e a globalização, fazendo com que a oferta so tornasse maior que a demanda, enfatizando a competição entre as empresas quebrou a possibilidade de crescimento sucessivo, baseada na educação.
O que foi válido para o crescimento dos paises hoje desenvolvidos não vale mais para os paises emergentes. Vale para alguns, mas não vale para todos. É um processo de soma zero, se não for algebricamente negativo. Aumentam, dessa forma, as diferenças sociais e de renda, entre pessoas e entre países.
O crescimento econômico não depende mais dos processos endógenos, mas requer uma ampliação do mercado para se inserir em processos mais amplos, globais.
Na perspectiva econômica e comercial, a educação propiciando a melhoria de conhecimentos não gera por si só, mais renda, mais consumo. Ela precisa ser orientada para consumos maiores, mais globais, sem o que não há empregos e rendas para absorver as pessoas, ainda que mais educadas, dentro de um processo endógeno.
É nesse sentido que insistimos que o modelo educacional japonês, coreano e agora chinês não é voltado - no sentido econômico - para um processo de crescimento interno (endógeno), mas é um instrumento do modelo de competitividade global, uma condição para melhorar as condições de concorrência das empresas sediadanas nos respectivos paises no mercado globalizado.
Um segundo papel esperado para a educação, ainda no campo econômico, é que ela propicie condições para o país desenvolver as atividades de alto valor agregado, ou de alta tecnologia agregada, ou ainda de alto conhecimento agregado. São os produtos que mais se desenvolvem no mundo moderno e que sustentariam os crescimentos continuados.
Cabe considerar, no entanto, que essas atividades são pouco empregadoras. Tem baixos índices de utilização de mão-de-obra por faturamento ou por investimento.
Desde os anos cinquenta, temos a falsa idéia de que jamais ficaremos ricos vendendo produtos agrícolas ou minerais. Naquela ocasião café e minério de ferro, e que precisavamos de vender ao mundo geladeiras, automóveis e aviões. Hoje vendemos isso tudo, e aí fica a falsa idéia de que precisamos vender computadores e telas planas. A Austrália e mesmo o Chile são demonstrações vivas que há economias que podem crescer e serem relativamente ricas (medidas, no caso, pela renda percapita) sendo exportadora de commodities e não de alta tecnologia.
São geradoras de renda, mas não de emprego, o que contribui para a desigualdade de renda. Poucos ficam muito ricos com essas atividades e não tem capacidade de absorver toda a mão-de-obra disponível no mercado.
Se essa mão-de-obra é mais educada, aumenta o desemprego educado.
É uma ilusão, achar que a educação, por si só, gera empregos. No mundo globalizado, a educação, por sí só, gera desemprego. A educação é um instrumento essencial para os ganhos de produtividade, o que significa produzir a mesma coisa, com menos gente.
Em termos de produtividade, a educação passa a ser vantagem econômica, quando se produz muito mais ainda que com mais gente. E não basta produzir, é preciso vender. E o trabalhador mais educado pode ser um comprador adicional para aquele que vende. Mas na outra ponta, houve um desemprego que consome menos.
Visto do ponto de vista pessoal, daquele que mais educado, conseguir um bom emprego, ganhar bem e poder gastar mais, esconde o fato de que na outra ponta, esse emprego gerou um desemprego, para atender a produtividade e a competitividade. E que esse desempregado reduz o seu consumo.
Procura-se mostrar apenas o lado positivo, o que escamoteia o conjunto. Aparentemente as coisas vão bem, mas as estatísticas do conjunto demonstram outra realidade.
Mas a educação não tem apenas um papel econômico, que não deveria, nem mesmo ser o principal. Está relacionada à cidadania, à conscientização do homem sobre os seus direitos e condiçõs de vida em sociedade. A conscientização é uma condição fundamental da vida humana e a educação foi e tem sido um poderoso instrumento para as pessoas se liberaram de mecanismos de submissão, seja a escravidão como a ditadura. O direito de manifestação é fruto da educação, que se contrapõe à ignorância.
A educação é uma forma para liberar o homem da opressão. A educação é essencial para o exercício da democracia. Mas também leva à distorções ideológicas, sendo vista como mecanismo de liberação dos sistemas hegemônicos. Ou seja, de se libertar do capitalismo.
Mesmo numa democracia, a falta de educação propiciaria as manipulações populistas, que leva a eleição de governanantes que atendem às necessidades imediatas, sem constuir uma esturutra sustentável, assim como "roubam" o Tesouro e o contribuinte.
Um outro grande papel da educação é a equidade. A possibilidade de gerar condições de igualdade entre as pessoas em relação às oportunidades de vida. Isso trataremos em outra oportunidade.
Mitos e ilusões
A defesa da educação como fator econômico parte do dogma de que a educação, por si só gera mais emprego e renda. A realidade hoje é outra.
Quando se percebe apenas o fenômeno do ponto de vista pessoal, de quem consegue um bom emprego, pela sua formação escolar, e tem um bom salário e consome mais, pode não estar vendo o outro lado: esse emprego pode ter sido a custa da demissão de outro ou de outros, que vão perder renda e consumir menos.
Educação gera emprego e renda é um dogma, não comprovado pela realidade, quando vista no conjunto.
Outro mito é que o país só ficará rico e desenvolvido se for exportador de produtos de maior valor agregado. Há casos de países como a Austrália, o Chile e outros que são mais desenvolvidos que o Brasil (em termos de renda percapita) que são essencialmente exportadores de commodities minerais e agrícolas.
Atividades de alta-tecnologia são altamente concentradores de renda. Alguns poucos ficam muito ricos (como Bill Gates) e aumentam o desemprego.
Não se pode enfrentar o problema real, com crenças, ilusões e mitos.
A educação é fundamental, é importante, é prioritário. Mas não é a panacéia universal.
Falta de educação e décadas perdidas
Depois do "milagre brasileiro" até os meados dos anos setenta, já são três décadas perdidas, em termos de crescimento econômico.
Há quem coloque a responsabilidade dessa situação à falta de educação da sociedade brasileira, como um todo, à baixa escolaridade e aos elevados índices de analfabetismo. Isso é transmitido pela elite, que - com isso - procura se safar da responsabilidade pelos seus erros.
O Brasil patina, em termos econômicos, há três décadas por culpa, por exclusiva responsabilidade da sua elite, que tomou e toma os caminhos errados, na condução da sua economia. Não é apenas do governo: é da elite empresarial, da elite intelectual, da elite econômica.
O Brasil tem crescimentos econômicos pífios, quando comparados com a evolução global e dos paises emergentes porque não soube se inserir na globalização e continua tendo uma visão equivocada sobre globalização. Continua voltado para dentro e vendo a globalização sempre como uma ameaça, e não como oportunidade.
A elite brasileira está sempre mais preocupada com os níveis de abertura da economia brasileira do que com as possibilidades de avançar nos mercados externos. Ainda sofre (pasmem) da síndrome de imperialismo.
Quando muito está voltado para a expansão do mercado regional, com os seus parceiros mais pobres e ai é inevitável que esses acusem o Brasil de imperialista. E é, ou melhor é um sub-império. Para não ser o Brasil precisa avançar sobre os grandes impérios, como a Índia e a China estão fazendo. A questão não é conquistar a Bolívia, mas conquistar "a América".
Não falta ao Brasil competência tecnológica e intelectual. O Brasil tem um quadro de cientistas, intelectuais, engenheiros, economistas e outros da maior competência profissional. Capazes de responder aos maiores desafios, desde que esses sejam os corretos. O problema do Brasil é buscar os desafios incorretos, os desafios errados. É mais um problema cultural do que profissional ou técnico.
Isso traz um paradoxo. Enquanto se alega que falta ao Brasil mais educação, mas gente capacitada, a competência existente está ociosa. Os cientistas estão isolados nos seus laboratórios, não buscando, não querenos maior integração com os empresários (que para eles são todos bandidos), e os empresários não procuram esses "gênios comunistas". Os intelectuais estão perdidos, preferindo o silêncio. Um silêncio ensurdecedor. A engenharia brasileira, que já foi uma das mais importantes do mundo, está hoje degradada, ociosa e sem rumo. Os economistas - formados nas melhores universidades mundiais - continuam tratando a economia brasileira numa visão estatística como se fosse a economia de onde eles estudaram. Nem sempre sabem separar o substantivo do adjetivo.
Não falta competência profissional ou educacional. Falta visão. Ou pior, a elite brasileira - que comanda os seus rumos - continua com visões equivocadas sobre o Brasil e sobre o mundo.
Continua faltando Galileu para dizer que não é o sol que gira em torno da terra, mas é a terra que gira em torno do sol. A elite brasileira continua acreditando que o mundo gira em torno do Brasil. Que o Brasil é o centro do mundo.
Educação, empregabilidade e ascensão social
Nesta questão da educação há alguma confusão, em função da diversidade do ângulo em que se vê a questão.
A educação, no sentido escolar, pode melhorar a empregabilidade individual, mas não necessariamente a empregabilidade conjunta. Na prática tem sido o oposto. Um trabalhador mais qualificado, com maior nível educacional, pode estar substituindo mais de um trabalhador com menos qualificação, aumentando o desemprego global.
O processo sucessivo de ganhos de produtividade na produção industrial, requerendo mão-de-obra mais qualificada, causou no Brasil, como em outros países, um aumento de desemprgo.
A educação, uma vantagem de natureza pessoal, não se constitui em agregação de valor conjunta, se não houver aumento de demanda e de produção para atender a essa demanda.
A educação, por si só, não gera produção, nem emprego.
É uma suposição de que uma sociedade com mais pessoas educadas terá mais competitividade e poderá crescer economicamente, gerando mais empregos. A história brasileira não comprova tal tese. Ao contrário.
Ai se faz, mais uma vez a confusão entre os valores absolutos e os relativos. O Brasil produz, a cada ano, um volume significativo de pessoas mais educadas, mais qualificadas, alguns deles em niveis de alta-especialização, seja para a academia, como mestrados e doutores, como para o mercado. O outro problema é dos excluidos da educação, ou dos falsamente educados, que igualmente aumentam a cada ano.
O que gera a dinâmica de crescimento não são esses falsos educados ou os analfabetos. Esses fazem parte do exército de excluidos que são alijados pelos mais educados. Ou permancem no mercado, em função da perversa lógica do capitalismo, que prefere manter esse exército de semi-qualificados para pagar menos, na suposição de que isso lhe dá mais lucros.
É falsa a correlação que se faz entre uma pauta de exportações, com baixa participação de produtos de maior valor agregado ou com baixo teor tecnológico, com o nível global de educação, ou de analfabetismo. É equivocada, também a ordem dos fatores, quando se vê exemplos como o da Coreia e agora da China. Não é o investimento em educação que faz da Coreia um centro de inovação tecnológica, mas a opção pelos produtos de alta tecnologia que leva ao investimento em educação.
O Brasil teve oportunidade histórica igual, ou até melhor. Quando a Coreia começou o Brasil tinha um quadro de cientistas, pesquisadores e competências muito superiores ao da Coréia, ainda que convivendo (sempre) com um enorme contingente de analfabetos e semi-analfabetos, grande parte na área rural. A Coreia que saiu da Guerra (no final dos anos 50) era um país essencialmente agrícola.
A diferença fundamental não foi a educação, mas a opção pelo "modelo exportador". A Coreia optou (ou por falta de opção) orientou a sua industrialização para o mercado norte-americano (e também para o japones e europeu) e para se manter nesse mercado - inicialmente patrocinado pelo Governo norte-americano dentro da sua estratégia da guerra fria - procurou o desenvolvimento tecnológico. E foi muito bem sucedida nessa empreitada, ao dar à educação o suporte de sustentação continuada.
O Brasil não consegiu o mesmo sucesso econômico, porque - ainda que investindo, na ocasião, muito mais em educação que a Coreia (isso em termos absolutos e não relativos) preferiu ficar voltado para o mercado interno, com reserva de mercado, sem o desafio de inovar para competir.
O fato real é que a demanda interna não foi o suficiente para dinamizar a produção e isso gerou um círculo vicioso, que só recentemente começa a ser rompido. O atraso, no entanto, foi fatal. O mercado mundial dos produtos de alta tecnologia está tomado pelos concorrentes.
Mas ainda há nichos de oportunidades.
O que continua faltando ao Brasil não é competência científica, nem tecnológica para ser um produtor e exportador de alta tecnologia. Faltam empresários ousados e competentes.
Segundo os teóricos do setor, essa carência decorre de um ambiente desfavorável. Ou seja, no Brasil não há um ambiente favorável para o surgimento e sustentação de empresários em atividades de alta tecnologia.
Outra confusão que se faz é entre a alta tecnologia e a sociedade do conhecimento.
Só como provocação. Um dos expoentes brasileiros da sociedade do conhecimento é o marketólogo Duda Mendonça.
Educação, empregabilidade e ascensão social - 2
Uma outra questão é da ascensão social pela educação.
Como caso concreto desse processo, vindo da classe média baixa, e ascendendo social e economicamente para patamares mais elevados, em função da educação, a maior parte dela em escolas públicas, ou patrocinadas pelo Estado, sou testemunha (ainda viva).
Mas o processo que vivi, a faciliade de ascensão hoje está contido, está reprimido e com caminhos equivocados.
Diante da concorrência daqueles que tem possibilidade de maior preparo para ingressar e se desenvolver na carreira educacional e profissional, a saida buscada tem sido a inclusão forçada.
No "meu tempo" não era preciso forçar nada. O mercado era amplo, o Brasil crescia a taxas elevadas, a modernização requeria novos profissionais e aqueles que tinham oportunidade de estudar, puderam ascender social e economicamente.
Hoje o mercado não oferece mais essa possibilidade e muitos dos que ascenderam, depois descenderam.
Sem crescimento econômico não há campo para a ascensão social e daqueles que forem incluidos artificialmente, poucos conseguirão seguir uma carreira ascendente. Haverá sempre casos ufanistas para contar. A história gosta de mostrar os vencedores, mas procura esconder os perdedores.
E educação é necessária. É preciso investir na educação, mas sem a atenção com a ponta da demanda, sem o investimento na produção, continuaremos gerando um grande desperdício de esforços e de conhecimento.
Sem demanda não há produção, sem produção não ha conhecimento que se sustente. Conhecimento é perecível e se perde ao longo do tempo.
A engenharia brasileira, o quadro de engenheiros brasileiros é um dos maiores exemplos de desperdício econômico e social.
por: Jorge Hori
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